domingo, 18 de maio de 2014

Burocracia emperra funcionamento dos 21 poços abertos no Nordeste


O Globo

Em abril de 2013, quando a Região Nordeste atravessava a pior seca dos últimos 50 anos, a presidente Dilma Rousseff anunciou, durante a reunião do Conselho Deliberativo da Sudene, um novo pacote de medidas para mitigar os efeitos da estiagem, que, na ocasião, afetava 1.415 municípios. Entre elas, estava a perfuração de 21 poços profundos, de grande vazão, pela CPRM/Serviço Geológico do Brasil, em áreas escolhidas a dedo para fazer chegar água subterrânea de boa qualidade ao sertanejo — um projeto de R$ 40 milhões. Devido à urgência, pelo menos 17 obras de perfuração foram contratadas sem licitação. O Observatório da Seca, lançado no mesmo encontro, registra a conclusão de 21.

Engana-se, porém, quem pensa que os poços, cavados a profundidades acima de 400 metros, resolveram as dificuldades de muita gente: 14 seguem parados por falta de bombas, energia ou adutoras para levar a água a quem precisa. Na maioria dos casos, não há sequer previsão para o restante da obra. O problema é que o Ministério da Integração Nacional não se responsabiliza por todas as etapas. Só após o poço ficar pronto, começa a discussão do fornecimento de energia para que as bombas funcionem, o que deve ser feito pelas concessionárias de cada estado. A canalização é outra dificuldade: municípios com até 50 mil habitantes têm de buscar verbas na Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para viabilizar adutoras e redes de abastecimento. Ou seja, o que era urgente no período da seca cai nos estraves de sempre da administração pública.

Em Apodi (RN), o poço está pronto desde junho de 2013, mas, sempre que a bomba é ligada, a energia cai cinco minutos depois. Os moradores seguem dependendo da água cara dos poços particulares, distribuída por carros-pipa.

— A água é mineral, de primeira, e vai beneficiar muita gente. Mas a chave é pequena, quando liga a bomba, ela cai. Na última vez que estiveram lá, trocaram e caiu de novo — diz o vereador Francisco de França Pinheiro.

Em São João do Canabrava (PI), o poço de 793 metros permanece fechado, cercado por mureta e arame. Além da população local, de 27 mil pessoas, ele abasteceria os municípios de Inhuma e São José do Piauí.

Há oito anos, a prefeitura de São João implantou o sistema de abastecimento de água. Os moradores do povoado de Estevão, onde o poço foi perfurado, têm em suas casas canos e torneiras. Porém, faltam água e energia elétrica. O lavrador José Sabino Tonheiro, de 62 anos, e sua mulher, Ecila, de 58, moram a poucos metros do poço perfurado pela CPRM, mas todas as manhãs saem de casa puxando um jumento, que, por sua vez, puxa uma carroça cheia de vasilhames de plástico. Caminham três quilômetros para pegar água num poço tradicional.

— Veja a nossa situação: temos poço, temos canos e temos torneira, mas não temos água. A água não chega porque o poço foi perfurado, mas a água não é distribuída — reclama Tonheiro.

— A gente pensava que a nossa vida iria melhorar quando perfurasse o poço. Já está com sete meses que ele foi concluído, mas não serve para nada. Nosso jumento já está cansado e para morrer de tanto puxar carroça. O poço está lá e não acontece nada — reclama Ecila.

O vereador José Gregório de Souza diz que o poço não funciona porque faltam os equipamentos para distribuir a água:

— O povo tinha expectativa porque as pessoas têm dificuldades de conseguir água. Todos achavam que o problema seria resolvido — diz.

Em Macururé (BA), o poço de 430 metros foi finalizado há seis meses, mas falta verba para construir a estação elevatória e os 20 quilômetros da adutora que levará a água. Também os poços dos municípios de Canudos e Euclides da Cunha dependerão, além de energia elétrica, de obras de canalização. Ainda não há previsão de término das obras complementares.

Em Quixeré (CE), só 150 famílias estão sendo beneficiadas, pois falta fazer o reservatório necessário para que a água chegue a um número maior de pessoas. Em Poço Verde (SE), a perfuração terminou há três meses , porém falta energia para ligar a bomba. A prefeitura reluta em repassar o poço para a empresa de água do estado, pois já é dessa empresa que ela compra cada carro-pipa de água, a R$ 160.

— O açude está sem água há três anos, e todo mundo sofre. O poço está lá, custou uma fortuna, não sei por que ainda não fizeram a ligação de energia para funcionar a bomba — diz Adauto Justino de Santana , secretário de Obras e Infraestrutura da prefeitura de Poço Verde.

Segundo Santana, a prefeitura esperava retirar a água de graça, mas recebeu um termo para transferir o poço para a empresa de saneamento do estado.
— Se for assim, vai ficar do mesmo jeito, no mesmo sofrimento, porque ninguém tem dinheiro para pagar o preço deles — diz Santana.

Em Araripe (CE), o poço ficou pronto e a água está sendo enviada para o município de Salitre, mas não pode ser usada para beber ou cozinhar. O secretário de Recursos Hídricos de Araripe, Jucélio Nunes, diz que a água tem sulfato, que causa diarreia, e precisa ser tratada — mas não há prazo para que isso ocorra. Araripe segue com carros-pipa e água do açude.

Em Baraúna (RN), o poço fica só a nove quilômetros da cidade. Ficou pronto em setembro passado e segue fechado. A situação é a mesma em Mirandiba (PE), onde o poço foi planejado para atender 40% da população.


— Só está cavado, o resto falta tudo. A gente não sabe quando vai usar essa água. É uma incerteza — diz José Carlos Oliveira, presidente da Câmara Municipal de Baraúna.

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